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Entrudo VS Carnaval



É chegada a época do ano em que, ao aproximar da Quaresma, todos os excessos são permitidos, em festa e folia. No entanto, o tradicional Entrudo português tem-se perdido na memória e no tempo e urge recordá-lo.

Etimologicamente distintas, as palavras Entrudo e Carnaval remetem para o período entre o Domingo da Septuagésima e a Quarta Feira de Cinzas. Entrudo, provavelmente derivado da palavra latina introitus (entrada), estaria relacionado com as Saturnalias, festas em honra de Saturno que comemoravam o despertar de um novo ciclo da Natureza. Carnaval poderá ter derivado da palavra latina carnevale (adeus carne), anunciando assim que a Terça-Feira Gorda é o último dia do calendário cristão em que é permitido ingerir carne, da palavra carnevalemen (o prazer da carne), ou ainda de carrus navalis (barco com rodas), reportando para as festas em honra a Dionísio nas quais um carro, transportando um grande tonel, distribuía vinho aos foliões da Roma Imperial.

Anunciando o período de abstinência da Quaresma (Quarenta dias de preparação para a Páscoa, estabelecidos pela Igreja, durante os quais se deverão fazer sacrifícios para purificação do corpo e da alma), o Entrudo era celebrado com uma alimentação melhorada, assumindo a carne de porco particular destaque, distinguindo-se por ser um momento de exageros, de abuso de tudo aquilo que será proibido nos dias subsequentes. Enquanto o Entrudo era a expressão utilizada junto das camadas mais populares na Época Medieval, “Carnaval” surge como novidade nos meios citadinos. Nos inícios do séc. XIX, a revolução económica, social e cultural faz emergir uma nova classe social - a burguesia - que vivia o Entrudo com a classe e o requinte das festas inspiradas no Carnaval italiano. Apesar de algumas famílias terem enriquecido, a grande maioria da população permanecia pobre ou remediada, servindo as ditas famílias. O Entrudo popular era normalmente vivido, na cidade, de forma caricatural, ridicularizante e ofensiva, sendo que os foliões lançavam uns aos outros todo o tipo de líquidos, pós, frutas e/ou objectos.

Na Beira, o Entrudo festejava-se de modo muito simples, muito popular, mas divertido. Sem grandes abusos e desregramentos, em quase todas as aldeias saíam à rua figurantes mascarados, com roupas velhas e rasgadas, cantando e dançando, gritando e assustando com paus quem passava. Percorriam as ruas, visitando as tascas e adegas, sendo convidados a beber. Quando os foliões encontravam alguma porta aberta, atiravam lá para dentro cacos velhos, bugalhos e pedras, para desespero das donas de casa. As rusgas de mascarados, as engenhosas partidas de Carnaval, exibidas por foliões nas ruas e nos bailes, e os entremezes de rua como formas de crítica a situações sociais e comportamentos pessoais menos aceitáveis, para todos os padrões da época, constituíam o tradicional Entrudo.

No Paul, a meio da noite, um ou mais grupos de foliões passeavam-se pelas ruas, expondo histórias burlescas sobre casos escabrosos que se passavam na aldeia, quase sempre reais mas ampliadas pela imaginação. Falavam da vida de todos divulgando o que já toda a gente sabia, mas que alguns não queriam ver revelado. Quem ainda se lembra?

Do verdadeiro e tradicional Entrudo português, provocador, desordeiro, onde a falta de respeito era tolerada até ao limite da paciência, já pouco resta, tendo sido substituído, em muitos casos, pelo Carnaval brasileiro (o qual tem origens no Entrudo português), nos corsos compostos por figuras de corpo ao léu, sob o frio e a chuva invernal, que percorrem as ruas das cidades.



E porque "é Carnaval, ninguém leva a mal", a todos aqueles que nos visitam, deixo aqui o desafio:

Lembre-nos e conte-nos como, para si, era o Entrudo antigamente...

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A Matança do Porco (I) - Introdução

"Bácoro em Janeiro com seu pai vai ao fumeiro"
Dito popular


"Matança do porco", iluminura do Livro de Horas de D. Manuel I
Século XVI


Ao longo de milhões de anos de evolução, o que permitiu ao Homem a sua sobrevivência foi a adaptação ao meio ambiente, através da criação de artefactos e utensílios, que lhe permitiram o domínio sobre a natureza e a fauna, podendo assim alimentar-se. Tendo já adquirido meios e técnicas de agricultura, o ser humano começou a adoptar a criação de gado para alimentação. Sobrevivendo a agricultura e a pastorícia ao correr do tempo e dos séculos, ainda hoje é tradição, ainda que já muito abandonada devido às exigências de higiene e segurança alimentares europeias e talvez por comodismo (a carne do talho e dos supermercados é sempre muito mais acessível e não implica encarar todo o processo ético e deontológico do sacrifício de animais, ainda que para alimentação), a Matança do Porco.

Já na época romana os porcos eram criados para abate, mas a sua função na cultura imperial romana era mais de aspecto ritual e não alimentar. Deste modo, a prática remonta a tempos medievais e, em Inglaterra, a época de matança (conhecida por Yule) iniciava-se em Setembro. Posteriormente, a Igreja católica transformou o ritual pagão numa festa cristã, transportando a manifestação para a época do Natal, passando a ser conhecida por Yuletide. No entanto, apenas as classes mais abastadas tinham acesso à carne de porco e as populações rurais viviam essencialmente de cereais, vegetais e alguma gordura animal.

Em Portugal, apesar da matança do porco ser antiga e estar bastante enraizada, as limitações económicas da maioria da população não permitiam a criação de suínos, estando essa possibilidade apenas acessível aos mais ricos. Mas a partir de meados do séc. XX o poder de compra da população rural aumentou substancialmente e as famílias começaram a proceder à criação de porcos e à matança de pelo menos um por ano.

A matança do porco reveste-se de aspectos religiosos oriundos de crenças populares que foram passando de geração em geração. Por exemplo, as mulheres e crianças não costumam estar presentes no cenário de matar o animal pois, sendo mais sensíveis ao acto, poderiam perturbar o matador (geralmente um homem que não pertencia à família e mais experiente na matança do animal) e o seu desempenho, acreditando-se que o comportamento das crianças e mulheres tornaria a morte do animal mais prolongada e dolorosa. Haveria também quem depositasse, em forma de cruz, o sal no fundo do alguidar que recolheria o sangue do animal, sendo, deste modo na crença popular, purificado.

De qualquer modo, a tradicional Matança do Porco, em Portugal, visa sobretudo o convívio social, a festa, a abundância, a partilha, a dádiva, o fortalecer de laços familiares e de amizade. Apesar do factor económico já não ser o principal motivo para a matança do porco, a prática resiste às mudanças nas comunidades pela necessidade de reafirmação da identidade local.
(Continua)

"A Matança do Porco", Obra de Carlos Calado
Museu Etnográfico da Erada


Fontes consultadas:
ANTUNES, Francisco, 1995, Para além da memória, Ed. Civis, Lda;
NOGUEIRA, Sandra, Da Banca da Matança aos Enchidos, disponível em http://www.geocities.com/sandrix65/Matanca.pdf;

http://pt.muestrarios.org/b/a-matan-a-do-porco.html
http://antropologia.com.sapo.pt/matanca.htm
http://rosarioandrade.wordpress.com/2005/12/05/a-matanca-do-porco-i/

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Janeiras

Festejado o Natal e o Nascimento de 2008, queimado o Madeiro e removidas as cinzas, é tempo de fazer contas à vida, aos desejos, ao Ano Novo... e de Cantar as Janeiras e/ou os Reis.



Esta é mais uma das tradições que se mantêm um pouco por todo o nosso Portugal e, apesar de vivermos os tempos modernos, as Janeiras continuam a ser cantadas, de porta em porta. No entanto, é difícil determinar a origem deste costume, que faz com que grupos de músicos e cantores percorram os lugares e a vizinhança, entre o Natal e o dia de Reis, entoando cantigas de Boas Festas, um Ano Feliz ou louvores ao Menino Jesus.

Os dicionários definem as Janeiras como “Cantigas de boas-festas por ocasião do Ano Novo” e, deste modo, alguns autores associam-nas ao primeiro mês do ano - Janeiro - que assim foi denominado pelos romanos (no séc. VIII a.C.), em honra do deus Jano (derivado da palavra janua, que significa porta, entrada ou passagem). Ocupando um lugar proeminente na mitologia romana, Jano era o porteiro celestial. Dele, esperar-se-ia autorização para transpor as portas do céu e protecção na partida e no regresso à vida. Considerado um deus dos términos e dos começos, do passado e do futuro, Jano seria invocado para afastar os espíritos malignos das habitações e seria ele o responsável pela abertura das portas para o novo ano. Seria, então, costume dos romanos se saudarem em honra do deus Jano, durante o mês de Janeiro, sendo que a tradição, ao longo dos tempos, foi assumindo a forma das Janeiras.

Por outro lado, o Cantar de Reis é uma tradição associada à quadra natalícia. Segundo outros autores, o Natal tem origens nas antigas celebrações universais do solstício de Inverno. Tendo em conta que o sol foi alvo de inúmeras cerimónias, ritos e cultos durante a antiguidade, a igreja católica, no séc. IV, teria associado o nascimento de Cristo à festa pagã em honra ao nascimento do sol, nesta particular data do calendário anual. Será por isso que, segundo esses autores,o Natal é um festejo que reúne ingredientes profanos e religiosos. O epilogo do ciclo natalício dá-se com a festa dos Reis (Gaspar, Baltasar e Belchior), que viajaram para adorar e prendar o Menino, daí as Janeiras se revestirem de um sentido mais religioso e se reportarem à simbólica adoração dos três Reis Magos e ao recém-nascido Deus Menino.

De qualquer modo, as Janeiras ou o Cantar de Reis permanece, não só na memória, mas também no quotidiano dos paulenses. Os grupos (de vizinhos, amigos, associações, instituições, etc) passeiam-se pelas ruas cantando, de porta em porta, músicas com letras alusivas à época, apelando para a solidariedade de quem os recebe, na busca de convívio e de um ou outro copinho de vinho, e desejando às pessoas um feliz ano novo. Terminada a canção, recheada de louvores aos donos da casa, espera-se que a porta se abra e ilumine o grupo com um pouco de luz e um pouco de calor (mesmo que de teor alcoólico), para enganar o frio das noites de Inverno. Satisfeito o ensejo dos cantores, agradecem, felizes, e vão cantar, em saudação e em festa, à casa mais próxima...



"Vimos cantar as Janeiras"!

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